É comum ouvir questionamentos das pessoas com quem converso sobre dinheiro, quando entro no assunto autoconhecimento. A pergunta sempre é: “onde está a autonomia nesse processo?”. Pode parecer meio óbvio para algumas pessoas, mas no geral, não é. Em uma rápida busca sobre o que quer dizer a palavra autonomia nós encontramos, de forma simples – entre jeitos mais elaborados de falar -, que autonomia significa: “capacidade de governar-se pelos próprios meios”.

Para podermos nos governarmos pelos nossos próprios meios é preciso, primeiro, conseguir entender quais são os nossos meios? Como eles estão conectados com quem nós somos e com a nossa capacidade de fazer planos, estratégias e traçar os caminhos que vão nos dar mais liberdade?

Pessoalmente falando, lidar com dinheiro sempre foi um tabu. Ouso dizer que a discussão financeira nas minhas relações sempre foi uma questão mais delicada do que falar sobre sexo. No contexto familiar, nunca soube quanto meu pai ganhava. Ele, como mantenedor do dinheiro, usava das finanças como controle daquele ecossistema. Minha mãe, como muitas mulheres, tinha a mais árdua tarefa: a de fazer a gestão do lar e educar duas crianças. Logo, a renda que tinha era sempre condicionada ao bom humor do “dono do dinheiro da casa”. Esse deve ser um formato familiar para você, imagino.

Voltando ao tabu: sem saber o quanto meu pai ganhava, entendendo que o dinheiro era moeda escassa na casa e que muitas brigas se originaram por causa dele, criei uma certa fobia em discutir sobre o assunto com quaisquer que fossem as pessoas.

Comecei a trabalhar cedo para conseguir ter o meu próprio dinheiro. É claro que a ansiedade de ter renda própria afetou meus estudos. Quando meus pais perceberam, cortaram minhas “asinhas” e, de novo, fiquei sem dinheiro. Ao voltar ao trabalho com renda própria, meu comportamento sempre foi o de ganhar dinheiro para me manter, comprar tudo e qualquer coisa que tinha vontade. A justificativa era: “eu trabalho para isso, ninguém vai regular minha grana”. E passei a gastar cada centavo que ganhava no mês. Algumas vezes, quando percebia um valor sobrando na conta, logo pensava: “Hmm, sobrou dinheiro, o que eu vou comprar agora?!”

Perceba que mesmo recebendo um dinheiro que era fruto do meu trabalho e que era mais do que o suficiente para me manter, eu não entendia o valor real dele e, além disso, me tornava escrava com hábitos de consumo nada saudáveis (assunto para um outro texto). O que quero dizer com isso é que por não ter noção de educação financeira minha relação com dinheiro era distorcida. Essa foi a consequência de não conversar sobre grana: não aprendi a lidar com o dinheiro, nem a valorizar meu trabalho. Eu estava na típica situação da pessoa que quanto mais ganhava, mais gastava…

Foi a partir de um processo de conscientização e autoconhecimento que comecei a pensar na minha relação com meu trabalho e com o que ele me rendia de frutos. Aqui eu falo em capital social e também em finanças. Quando eu entendi que meu tempo era muito valioso para trabalhar apenas para receber um valor no fim do mês, entendi que essa lógica de ganhar/gastar estava me saindo caro demais.

Um olhar para o todo

Um dos exercícios que me ajudaram a refletir sobre o grande tabu da minha vida foi o de dar um passo para trás. Eu recomendo muitíssimo que você faça isso também: experimente dar um “zoom out” e olhar sua vida de cima, como em uma linha do tempo. Trace uma linha cronológica e destaque os momentos mais marcantes da sua vida até agora. Não tenha medo, essa é uma ferramenta poderosa para entendermos de onde estamos vindo e para onde estamos caminhando…

Agora, com uma outra cor de caneta, coloque qual a sua relação com dinheiro em cada um desses marcos. Se quiser adicionar outros, fique à vontade, a linha do tempo é sua! 🙂

Quando fiz esse exercício, percebi que meus marcos estavam muito relacionados com momentos graduais de liberdade. Como a mudança de escola, quando saí de um colégio público para um particular e entendi que o dinheiro já era uma questão naquele contexto; mudança de cidade, quando tive que aprender a administrar meu dinheiro sozinha pela primeira vez; faculdade e estágio e o primeiro salário de estagiária; viagem para o exterior sozinha… Todos os meus marcos me mostraram também que minha liberdade estava totalmente relacionada com quando eu tinha ou não dinheiro. Minhas escolhas mudaram, meu caminho foi alterado ou até modificado por causa disso. Isso quer dizer que a “minha capacidade de me governar pelos meus próprios meios” também foi afetada.

É por isso que acredito que conversar sobre dinheiro, que faz parte de toda a nossa vida, é também uma oportunidade para crescer e dar espaço para a autonomia. Olhar para trás me ajudou a entender que para tomar decisões com mais clareza, era preciso compreender quais necessidades eu tinha como fundamentais.

Hoje eu não tenho problema nenhum de admitir: para ter tranquilidade dos meus próximos passos, eu sinto a necessidade de ter dinheiro para me manter caso alguma coisa dê errado. Para dar os saltos que eu quero com a confiança que preciso, tenho necessidade de saber que vou dar conta de todos os meus boletos.

Veja que esses critérios me ajudaram a dar os primeiros passos para meu futuro. Na verdade eu posso dizer com segurança que eles foram fundamentais para meu momento atual e sempre que sinto uma certa ansiedade, eu volto para consultar minhas anotações e lembro: está tudo certo, estou no caminho certo, meus passos anteriores me trouxeram até aqui…

Por isso, te pergunto: qual a sua relação com dinheiro? Olhando “de cima”, quais foram os marcos da sua história até aqui e como eles foram afetados pelo dinheiro?

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